sábado, 27 de maio de 2017

VERDADES NEOATEÍSTAS


1 – Todo deus foi criado pelo homem – à sua imagem e semelhança.
2 – No começo, rendeu-se culto ao deus criado, transformando-o em ser sagrado; mais tarde acreditou-se que ele é que criou o homem à sua imagem e semelhança.
3 – As melhores qualidades observadas no homem foram atribuídas a deus, que as manifestaria em mais alto grau.
4 – O mundo é ciclo perpétuo (caos e ordem são meras interpretações antropocêntricas).
5 – O big bang é tão somente um algoritmo químico-físico que deu origem ao universo em que vivemos, delimitado pelo espaço-tempo já conhecido pelo homem.
6 – Outros universos foram, são e serão possíveis, originados a partir de outros algoritmos.
7 – Nesses universos, a vida foi, é ou será um fenômeno possível (da bactéria ao além-do-homem).
8 – Não há mundo-além e tampouco vida depois da morte.
9 – A alma é imanente ao corpo, também sujeita à temporalidade.
10 – Você é um algoritmo do ser. 
P.S.: Os algoritmos são criados pelo próprio fenômeno, como, por exemplo, a evolução da vida neste planeta.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

EU (DIVIDIDO EM DOIS)

Tu pensas e tens certeza de que teu eu é indivisível, inviolável, senhor absoluto de tua própria individualidade. O eu é o centro, a base centralizadora de todas as percepções de teu corpo, de tua consciência.
A verdade precisa ser dita (nem que faça o mundo em estilhaços, no caso em pauta, o eu): sinto muito te dizer que és sujeito e objeto de um autoengano.
Teu eu é dividido em dois: o eu que vive a experiência e o eu da narrativa. Por acaso, sabias disso? Não sabias, certamente. Não te recrimines por isso, todavia, a ignorância é a regra.
Na cadeira odontológica, quando o dentista coloca a broca em tua boca e desgasta o dente (mesmo não estando dolorido, em razão da anestesia), teu eu é o da experiência. Nesse momento, o desconforto que tu sentes pode ser quantificado por um nível alto (numa escala de 0 a 10).
Depois da experiência, passado um tempo qualquer, o eu da narrativa avalia a experiência, com tendência a ignorar sua duração, fazendo uma média entre o desconforto/dor e o final, com o problema resolvido. Dessa forma, a experiência narrada baixa o nível do desconforto/dor.
Para Harari (2016) “o eu da narrativa não agrega experiências – ele tira uma média entre elas”. Em seu livro Homo Deus, Harari cita os estudos feitos por Daniel Kahneman (Nobel de Economia) e Donald Redelmeier (Universidade de Toronto).
         Cito Harari, por puro academicismo. O que realmente queria dizer dispensa o  último parágrafo acima.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

ALGORITMO, DATAÍSMO...

Abaixo transcrevo uma das últimas páginas de Homo Deus (2016), de Yuval Noah Harari*:

“Na Babilônia antiga, quando enfrentavam um dilema difícil, as pessoas subiam ao topo do templo local na escuridão da noite e observavam o céu. Os babilônios acreditavam que as estrelas controlam nosso destino e predizem nosso futuro. Observando-as, eles decidiam se casavam, aravam o campo e iam para a guerra. Suas crenças eram traduzidas em procedimentos práticos.
“Religiões baseadas em escrituras, como o judaísmo e o cristianismo, contam uma história diferente. ‘As estão mentindo. Deus, que criou as estrelas, revelou toda a verdade na Bíblia. Então parem de observar as estrelas – em vez disso, leiam a Bíblia.’ Essa também era uma recomendação prática. [...]
“Na sequência, vieram os humanistas, com uma história totalmente nova: ‘Os humanos inventaram Deus, escreveram a Bíblia e agora a interpretam de mil maneiras diferentes. Assim, eles próprios são a fonte de toda a verdade. Você pode ler a Bíblia como uma criação humana inspiradora, mas não é obrigado a isso. Se está diante de um dilema, ouça apenas você mesmo e siga sua voz interior’. O humanismo dava então instruções práticas detalhadas de como ouvir a si mesmo, recomendando ações tais como observar o pôr do sol, ler Goethe, manter um diário particular, ter conversa de coração aberto com um bom amigo e realizar eleições democráticas.
“Durante séculos , os cientistas aceitavam também essas diretrizes humanistas. [...]
[...] “Depois de Darwin, os biólogos começaram a explicar que sentimentos são algoritmos complexos aprimorados pela evolução para ajudar os animais a tomar decisões importantes. Nosso amor, nosso medo ou nossa paixão não são fenômenos espirituais nebulosos que servem apenas para compor poesia. Em vez disso, eles encapsulam milhões de anos de sabedoria prática. Quando você lê a Bíblia, está sendo aconselhado por alguns sacerdotes e rabis que viveram na antiga Jerusalém. Em contrapartida, quando presta atenção a seus sentimentos, está seguindo um algoritmo que a evolução desenvolveu durante milhões de anos. [...]
“No século XXI, no entanto, os sentimentos já não são mais os melhores algoritmos no mundo. Estamos desenvolvendo algoritmos superiores que utilizam um poder computacional inédito e bases de dado gigantescas. Os algoritmos do Google e do Facebook sabem não apenas como você se sente, como sabem 1 milhão de outras coisas a seu respeito. [...] O humanismo ordenava: ‘Ouçam seus sentimentos!’; o dataísmo agora ordena: ‘Ouçam os algoritmos! Eles sabem como você se sente!’.
“’Quer saber quem você realmente é?’, pergunta o dataísmo. ‘Então esqueça as montanhas e os museus. Você já obteve sua sequência de DNA? Não?! Vá e faça isso hoje mesmo.’”
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Yuval Noah Harari nasceu em 1976, em Israel. É autor de Sapiens: Uma breve história da humanidade. É ph.D. em história pela Universidade de Oxford e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

O RICO, O POBRE E O QUE RI

         A riqueza material transforma o homem num ser quase inatingível para a massa. Os olhos (mais importante órgão da percepção sensorial) do homem rico veem num plano acima dos olhos do pobre.
         Para onde e o que olha o rico? Ele olha para o horizonte mais distante, sobre o qual brilha o sol do liberalismo. Abaixo de sua visão, o outro não passa de uma silhueta pouco identificável.
         Para onde e o que olha o pobre? Ele olha para cima, à procura do olhar do outro (entre a soberba e a indiferença).
         O que é risível no rico? Sua incapacidade de esconder os vícios de caráter, comuns à massa a que ele pertencia antes (menos evoluída econômica e culturalmente).  
         O que é risível no pobre? Seu anseio patológico de parecer rico, a ostentar objetos e comportamentos que identificam o outro.
         Quem pode rir do rico e do pobre, sem denunciar a hipocrisia (do tipo “uvas verdes”) ou o complexo de vira-lata?
         Alguém que superou os valores mais caros da sociedade de consumo, que compreendeu a diferença entre ter e ser, que possui coisas indispensáveis para viver (pobre na aparência), que continua a buscar os bens imateriais propiciados pela sabedoria (rico na essência), que transita entre pobre e rico com igual naturalidade, que pode parecer um tanto presumido...
         Seu riso, todavia, faz-se acompanhar de empatia, vista raramente pelo homem condicionado ao âmbito do ter, pobre ou rico.  

domingo, 21 de maio de 2017

A MATTER OF FAITH




Ontem vi mais um filme na NETFLIX: A matter of Faith. Esse título me chamou a atenção, aumentada com a descrição breve: “A crença de uma aluna cristã é abalada durante as aulas de biologia, mas seu pai entra em cena para impedir que ela abandone a fé”.

O filme é fiel ao país de origem, um dos mais cristãos do planeta, em que metade da população acredita piamente que “Deus escreveu um livro” (Sam Harris).

A universidade em que estuda Rachel promove um debate curricular entre o professor de biologia e o pai da aluna, respectivamente na defesa da evolução e do cristianismo. Antes do debate, no entanto, a jovem universitária sai em defesa de sua religião.

Não há necessidade de considerar o desfecho do filme. Decepcionado, fui pesquisar sobre seu diretor: Rich Christiano, um cristão convicto.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ATEU HONESTO



Não me interessa debater com os cultuadores de mito sobre a existência ou não de um deus. Por outro lado, gosto de questionar o caráter e a conduta contraditórios desses que creem num deus infinitamente bondoso. Malgrado sua crença, continuam a falar mal dos outros, a mentir para os outros, a invejar os outros, a lograr os outros (nos negócios mundanos), a espezinhar os outros...
Não mais aceito a desculpa de que o homem é falho. O falso arrazoado visa proteger a própria crença de que o homem é feito imagem e semelhança de um deus infinitamente bondoso. Ninguém é perfeito, no entanto perfectível, capaz de melhorar seu caráter e sua conduta, evoluir eticamente.
O mal nessas pessoas que conheço muito bem, não se limita à maledicência, à mentira, à inveja, à falcatrua, ao espezinhar, à maldade... mas é acrescido da crença num deus infinitamente bondoso, que as fez assim, falhas, contumazes no erro.
O teísmo é um subterfúgio, que serve para aliviar tais pessoas do sentimento de culpa, da má consciência... salvo-conduto para persistir no erro. A exposição ao ridículo que fazem de seu deus infinitamente bondoso é proporcional à própria hipocrisia.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O CICLO DE UNIVERSOS



No instante anterior ao Big Bang, o mundo em que começo a fazer esta reflexão existia como potência, possibilidade, para remeter a um aspecto da doutrina aristotélica. Após a grande explosão, o universo passa à condição de ato, realidade.
No ser real, o filósofo não pensou nisto, ocorre o desenvolvimento latente de uma nova potência, que reinicia o ciclo num próximo estágio. 
A semente (potência) produz a árvore (ato), que produz a semente... Por analogia, concentrado num único ponto inimaginavelmente pequeno (potência), o universo se expande a partir de uma explosão inimaginavelmente grande (ato), proporcional à energia contida pela potência.
O que pode ter produzido a potência, a possibilidade que resultou no ato, o universo em que faço o presente questionamento?
A lógica retroativa aponta para um ato anterior, outro universo que tenha se contraído tanto, a ponto de se transformar em potência de um novo universo.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

ANTICATOLICISMO


"PECADOS" DE GIORDANO BRUNO
(Por que não sou católico?)

        Giordano Bruno foi um padre e filósofo italiano, queimado na fogueira em 19 de fevereiro de 1600 pela Igreja Católica. Seus “pecados”: apontar incoerências em Aristóteles, aproximar-se do arianismo (fé segundo a qual a Trindade era uma invenção humana) e, principalmente, por ler obras de místicos e alquimistas.
        Bruno representa o mais famoso dos hereges (de uma lista muito extensa de) condenados pela “Santa” Inquisição. Bruxas não existem, todavia, mais de 40 mil mulheres foram mortas pela Igreja Católica com acusação de bruxaria.
        Depois de matar muita gente, o catolicismo passou esse poder assassino ao islã, cuja literatura prega que “o Paraíso fica à sombra da espada”.
        Nascido numa família católica, acreditei na religião (que me fez confessar um pecado aos sete anos de idade). Ainda bem que a abandonei na juventude, a partir do conhecimento de História, não bastasse o conhecimento de outras ciências e de Filosofia.
        Ao escrever e publicar sobre esse assunto, não penso ser falta de respeito com os católicos (ampla maioria da sociedade a que pertenço). A História é que deveria ser acusada de falta de respeito, da mesma forma que outras ciências e que a Filosofia.
        Uma coisa que me causa certa indignação é como as pessoas se agarram a uma religião, usando o pouco de razão que desenvolveram naturalmente para justificar (racionalizar) as próprias crenças.
Sugiro a essas pessoas que leiam História, a história da Igreja Católica, a história de Giordano Bruno.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

CRÔNICA DO RINCÃO DOS MACHADO


 
Esta tarde chuviscosa e longa, depois da sesta, de um trabalho de marcenaria e do banho, propicia-me um momento adequado para escrever algo. Não basta o barulho da chuva como estimulante, o drink é fundamental para me indicar a “toca do coelho”.
A última expressão acima não significa que saio da realidade, para mergulhar feito Alice ao encontro de uma alegoria. Minha condição não é a de um personagem, o que me impõe tomar as rédeas da elocução. É exatamente isso que faço neste momento.
O Rincão dos Machado, costumo dizer às pessoas com quem me relaciono na cidade, representa meu cantinho telúrico, de uma poesia rude e delicada ao mesmo tempo. Rude como a vida no âmbito rural, delicada como as boninas que florescem no campo. Aqui encontro o silêncio (tão precioso aos indivíduos contemplativos), às vezes interrompido pelo canto dos pássaros, pelo volume do rádio ligado na cozinha, ou pelo som da chuva. Aqui encontro a simplicidade, tão agradável ao meu espírito. Aqui vivo a liberdade, depois de tantas dependências e enleios (que me fizeram penar anos e anos). Aqui meu pai e meu irmão também vivem livres, trabalham bastante é verdade, mas são donos de seus destinos.
A chuva que cai continuamente provoca um aumento no fluxo de água do rio Rosário, encobrindo a ponte que nos leva à cidade. Somos obrigados a dar uma volta maior, caso decidirmos experimentar as benesses da civilização. O lamentável é que as estradas continuam em péssimo estado, malgrado as promessas do prefeito.  
A tarde se foi, uma vez que as duas janelas da sala onde me encontro desapareceram do meu campo visual. A noite chega previsível, ainda mais silenciosa que a tarde. Apenas o coro dos sapos me chama a atenção (ao sair lá fora por um motivo óbvio). O açude está em festa.
Na conclusão desta crônica, para manter a coerência textual, devo retomar algo expresso em sua introdução. Dessa forma, digo que o drink estava ótimo. Pouco poético, mas autêntico como sói ocorrer ao realista,  que toma a liberdade de colocar o ponto final e pronto.