terça-feira, 1 de junho de 2010

VISÃO INGÊNUA SOBRE A AMÉRICA LATINA

DOCUMENTÁRIO DE OLIVER STONE APRESENTA VISÃO INGÊNUA SOBRE A AMÉRICA LATINA

Matéria de Maurício Stycer (Crítico do UOL)

A tese principal de “Ao Sul da Fronteira”, de Oliver Stone, é que o Fundo Monetário Internacional, servindo aos interesses dos Estados Unidos, com o apoio da mídia e a complacência dos governantes latino-americanos, dirigiu o continente nas últimas décadas, até Hugo Chávez dar início, na Venezuela, a uma revolução bolivariana, que frutificou em diferentes países.

O documentário não apresenta uma única informação nova em defesa desta tese – apenas o reiterado discurso do próprio cineasta, e as falas de apoio, quase automáticas, de Chávez, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador). Em seu périplo pela América Latina, Stone entrevista, também, o casal Kirchner (Argentina), Raul Castro (Cuba), Fernando Lugo (Paraguai) e Luiz Inácio Lula da Silva.antes, o cineasta passeia com Chávez pelas ruas de Caracas, mastiga folhas de coca e bate bola com Morales, pergunta a Cristina Kirchner sobre os seus sapatos e diz a Lugo que ele parece um cara legal. Para mostrar a oposição a estes governos de esquerda, o cineasta evita ouvir vozes locais e opta por exibir trechos de noticiários e comentários de emissoras americanas, como a Fox News, tão toscos que se desqualificam sozinhos.

O principal personagem de “Ao Sul da Fronteira” é Chávez. Stone descreve a trajetória do presidente da Venezuela, desde o golpe fracassado que tentou em 1992 até o golpe que sofreu, dez anos depois. Repisa histórias fartamente conhecidas, exploradas em outros filmes e livros, sobre o apoio da mídia venezuelana ao golpe de 2002, o papel do governo americano, a rápida adesão do FMI e o constrangedor editorial do “New York Times” saudando os golpistas (dois dias depois da volta de Chávez ao poder, o jornal se desculpou).

“Ao Sul da Fronteira” não deve funcionar nem como filme de propaganda. Ao menos na América Latina, a visão que Stone apresenta dos acontecimentos dificilmente mudará a opinião de uma única alma, tanto à esquerda quanto à direita. Nos Estados Unidos, tal como os documentários de Michael Moore, o filme de Stone talvez ajude a alargar um pouco a visão provinciana dos americanos sobre o mundo. Para a obra do cineasta, que apresenta títulos importantes, questionadores ou polêmicos, como “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho”, “Wall Street” e “JFK”, entre outros, creio que “Ao Sul da Fronteira” não acrescenta muita coisa.

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